Presentismo

Um dia nos disseram que o presente é a única coisa que existe – e que deveríamos aproveitá-lo intensamente. Mas esta crença, levada ao extremo, trouxe algumas consequências. Este artigo aborda alguns dos efeitos desta mentalidade.

Quero começar falando de um livro, Present Shock: When Everything Happens  Now, do teórico da mídia Douglas Rushkoff. Ele propõe uma leitura incômoda sobre o  tempo contemporâneo. Se em Future Shock (Alvin Toffler, 1970) o colapso era provocado  pela aceleração do futuro, Rushkoff sugere que agora vivemos um fenômeno inverso: o  colapso do presente. Não estamos mais sobrecarregados pelo que está por vir, mas  soterrados pelo agora. 

Rushkoff descreve uma era em que a lógica do digital transformou o tempo em uma  rede contínua. Tudo acontece simultaneamente: o trabalho, o lazer, a notícia, a crise, o  comentário, o meme, o investimento. A fronteira entre o que acabou e o que começou  desapareceu. Vivemos conectados em tempo integral, respondendo em tempo real. Não  há mais espera, reagimos quase que instantaneamente. Essa condição, que o autor chama  de present shock, define o modo como pensamos, produzimos e nos relacionamos com o  tempo, onde o agora torna-se permanente. 

Ele identifica cinco manifestações centrais dessa nova temporalidade. A primeira é  o colapso da narrativa (Narrative Collapse). As histórias lineares que organizavam nossa  experiência — aquelas com começo, meio e fim — deram lugar a fragmentos que  competem pela atenção. O mundo virou um feed: tudo coexistindo, sem hierarquia  temporal. As redes sociais são o exemplo mais claro disso. Não acompanhamos jornadas,  acompanhamos momentos. Não há mais trajetória, apenas atualização. A política se tornou uma sequência de clipes, as marcas substituíram coerência por likes, e a atenção  se fragmentou em ciclos curtos de relevância. 

A segunda manifestação é a digifrenia (Digiphrenia), o estado em que um mesmo  indivíduo ocupa múltiplas realidades temporais e identitárias. Estamos presentes em  reuniões físicas enquanto respondemos a mensagens em cinco grupos diferentes.  Postamos uma versão profissional no LinkedIn, uma emocional no Instagram, outra de  opinião no X. Nenhuma dessas presenças é falsa, mas todas são parciais. A mente  humana, ao tentar operar em tantos tempos simultâneos, perde o ritmo natural de  profundidade. Vivemos divididos entre o que acontece e o que já está sendo narrado. 

O terceiro fenômeno é o overwinding, ou a compressão do tempo. É o esforço de  fazer caber tudo agora. Projetos que deveriam durar anos são forçados a mostrar  resultados em semanas; empresas que antes se guiavam por estratégias de longo prazo  agora medem seu sucesso em trimestres; profissionais tentam acumular, em um único  ciclo, as experiências de uma década. Essa lógica cria uma ilusão de produtividade e  competência, mas destrói o senso de processo. A aceleração torna-se um fim em si  mesma. 

A quarta manifestação é o que Rushkoff chama de fractalnoia — a tentativa de  encontrar coerência em meio ao caos. Diante do excesso de dados, a mente busca  padrões, mesmo onde eles não existem. É o analista que correlaciona métricas aleatórias,  o gestor que toma decisões analisando um único gráfico, normalmente o de receitas, ou o  cidadão que transforma coincidência em causa. Vivemos em um ambiente de informação  ilimitada e compreensão rasa, onde a interpretação se torna quase um ato de  sobrevivência. O excesso de dados está gerando escassez de sentido. 

Por fim, há o apocalypto — a obsessão contemporânea pelo fim. Quando o  presente parece não ter direção, buscamos encerramentos simbólicos. Narrativas de  colapso, queda ou extinção tornam-se formas de recuperar a sensação de linearidade  perdida. O discurso do “fim de tudo” oferece alívio: ele encerra o que não sabemos como  concluir. O apocalipse, nesse contexto, é menos uma realidade e mais uma estratégia  psíquica para suportar o agora interminável.

Esses cinco sintomas compõem o retrato do nosso tempo: um presente expandido,  contínuo e saturado, em que o futuro é comprimido até caber no instante. A atualização  substituiu o planejamento. A urgência tomou o lugar da intenção. A velocidade virou  sinônimo de progresso. E o agora, inflado e permanente, transformou-se em prisão. 

O historiador François Hartog chamou esse fenômeno de presentismo: o regime de  historicidade em que o presente domina o passado e o futuro. Rushkoff não usa esse termo,  mas descreve o mesmo sintoma. Ambos apontam para a mesma crise: a incapacidade de  projetar. Sem distância temporal, não há reflexão, e também não há consequências (Perigoso isso, não?), sem horizonte, não há direção.  

O presentismo não é apenas uma questão cultural; é também uma crise pessoal e  organizacional. Organizações tomadas por ele confundem agilidade com propósito,  confundem visibilidade com relevância. Tomam decisões em tempo real, mas perdem a  capacidade de enxergar o que está além do ciclo de métricas. Em um ambiente onde tudo  é urgente, nada é realmente importante. A lógica do agora, quando dominante, destrói o  espaço do depois e, consequentemente, compromete o futuro. 

Conforme Rushkoff: A compressão do tempo afeta a imaginação. Sem distância,  não há reflexão. Sem futuro, não há razão para a estratégia. O foresight é isso, a capacidade  de pensar adiante e resgatar o tempo como ferramenta de pensamento. Pois pensar futuros  é recuperar a profundidade e desenvolver espessuras no tempo, até sairmos da superfície. É restituir ao pensamento a capacidade de imaginar o que ainda não é, mas que pode vir a  ser.

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