688.000.000.000.000.000.000.000 de neurônios no mundo. Isso é o que compartilhamos enquanto espécie. Mas, se somos capazes de processar tamanha complexidade, por que ainda insistimos em algo tão simplificado quanto as personas?
Esse texto não é um manifesto anti-personas, mas uma provocação. Queremos questionar, juntos, se o marketing que fazemos hoje realmente reflete o que nossos consumidores — seres complexos, multifacetados e conectados — desejam. Estamos presos a categorias estáticas ou prontos para navegar em um mundo de interações fluidas, onde as identidades são mutáveis e os comportamentos, imprevisíveis?
As personas ainda têm seu lugar, dirão muitos, e concordamos. Afinal, elas nos dão uma forma tangível de pensar sobre nossos clientes. Mas essa tangibilidade pode ser um engano perigoso. Reduzimos indivíduos a rótulos baseados em idade, gênero ou profissão. Mas será que isso ainda faz sentido em uma sociedade onde os consumidores são multiversos de experiências, crenças e desejos? Ao focar em aspectos demográficos, corremos o risco de apagar a singularidade e a imprevisibilidade que torna cada indivíduo único.
E se, ao tentar simplificar, estivermos ignorando o que realmente impulsiona nossos clientes: suas emoções, seus valores, suas conexões sociais?
Nós nos conectamos com o que nos reflete. Mas não sozinhos. O marketing tradicional falha em capturar o profundo senso de pertencimento que molda as decisões de compra. O que parece uma escolha individual é, muitas vezes, uma ação dentro de uma rede social mais ampla — uma comunidade. E comunidades não são unidimensionais. Elas respiram, mudam e se reinventam em torno de valores compartilhados. Elas não apenas compram um produto, mas se identificam com um propósito.
Será que estamos prontos para compreender essa dinâmica? Ou estamos presos a mapas de jornadas que desenham trajetórias lineares, quando nossos consumidores estão se movendo em redes complexas e colaborativas?
Comunidades são heterogêneas, muito mais do que qualquer persona estática pode representar. A internet não respeita fronteiras de idade, classe ou geografia. Grupos se formam em torno de interesses e causas e, muitas vezes, não têm nada a ver com os parâmetros tradicionais que usamos para definir quem são nossos clientes. Se nossos consumidores são fluídos, por que nossas abordagens de marketing são tão rígidas?
Com a tecnologia, consumidores deixam de ser receptores e passam a ser criadores. Criadores de conteúdo, de comunidades, de cultura. A era digital transformou a maneira como interagimos e, por consequência, a forma como vendemos precisa mudar também. Se nossos consumidores estão moldando o mercado em tempo real, será que podemos continuar tratando-os como segmentos fixos?
Se não são as personas, o que deve guiar nossa estratégia de marketing?
Propomos algumas alternativas, mas não temos a resposta definitiva. Queremos convidar você a pensar com a gente:
- Mapeamento de comunidades de consumidores: Em vez de criar personas individuais baseadas em dados demográficos, o foco pode ser na identificação de comunidades de consumidores que compartilham interesses, comportamentos e valores. Esse mapeamento envolve:
- Identificar influenciadores e membros ativos da comunidade.
- Compreender as conexões e interações entre os membros.
- Analisar as conversas, temas e preocupações comuns que circulam dentro dessas comunidades.
- Criar moodboards sobre essa comunidade.
Essa abordagem proporciona uma visão mais coletiva e dinâmica do comportamento do consumidor, percebendo nuances e focando no sentimento de pertencimento e nas interações sociais.
- Segmentação comportamental e psicográfica dinâmica: Ao invés de focar em características estáticas, as empresas podem adotar a segmentação baseada em comportamentos reais e valores compartilhados, como:
- Analisar o comportamento digital e interações em tempo real.
- Identificar os padrões de consumo de conteúdo e engajamento em plataformas sociais.
- Entender os motivos e emoções que levam as pessoas a agirem, o que proporciona uma visão mais profunda do que simplesmente focar em variáveis como idade ou renda.
- Análise de sentimento e cultura participativa: Em um mundo de cultura participativa, as marcas precisam entender as emoções e os sentimentos que movem seus consumidores. Isso pode ser feito por meio de:
- Ferramentas de análise de sentimento para captar emoções nas redes sociais e plataformas de comunidade.
- Estudo das tendências culturais emergentes, observando como os consumidores se posicionam em relação a eventos sociais, políticos e econômicos, integrando isso à estratégia de marketing.
- Co-criação com o consumidor: Abandonar o conceito de personas e se aproximar mais de um modelo de co-criação com os consumidores. Isso pode ser feito por meio de:
- Plataformas de inovação aberta, onde os consumidores contribuem com feedbacks e ideias para o desenvolvimento de produtos e campanhas.
- Comunidades de marca, onde as pessoas participam ativamente na construção da narrativa e na evolução da empresa.
- Monitoramento de sinais fracos e uso de foresight: Em vez de depender de personas fixas, marcas podem monitorar sinais fracos e usar foresight (antecipação de cenários futuros) para identificar mudanças nos padrões de comportamento em tempo real. Isso permite que as empresas adaptem suas estratégias de forma mais flexível e personalizada, com base no que está por vir e não apenas no que já foi observado.
- Engajamento em ecossistemas digitais: Em um mundo conectado, consumidores fazem parte de ecossistemas digitais que não se limitam a uma plataforma ou rede. Substituir personas pode significar:
- Observar como os consumidores se movimentam entre diferentes canais e plataformas (por exemplo, interações no Instagram, comportamento no TikTok, decisões de compra no e-commerce).
- Analisar a jornada do consumidor de maneira mais holística, levando em consideração os múltiplos pontos de contato e como eles se entrelaçam para formar uma experiência contínua.
- Modelagem de dados e inteligência artificial: O uso de modelos preditivos de dados e inteligência artificial pode ajudar a capturar o comportamento dos consumidores de forma mais precisa e em tempo real. Em vez de criar personas, as marcas podem:
- Usar análises preditivas para identificar padrões comportamentais emergentes.
- Aplicar machine learning para agrupar consumidores de maneiras mais complexas e dinâmicas, refletindo melhor as suas interações e preferências.
- Narrativas coletivas: Focar em narrativas coletivas que ressoem com os valores e preocupações compartilhadas pelas comunidades. Isso envolve contar histórias que reflitam as experiências e aspirações de grupos de consumidores, ajudando a marca a se posicionar como parte integrante de suas vidas.
- Foco na escuta ativa: Substituir personas por um modelo de escuta ativa contínua, onde as marcas acompanham e interpretam as conversas em tempo real e ajustam suas estratégias com base nas necessidades e desejos em evolução dos consumidores.
Em tempos de impermanência, precisamos ser bons “escaneadores” dos cérebros de nossos clientes. Se a persona olha para a realidade pretérita, novas empresas, olham para o cliente do futuro, captando sinais de mudanças, mirando o movimento das bordas.
O comportamento emergente de sistemas como o mercado e os consumidores não pode ser previsto com base nas partes isoladas, pois é complexo. Ao nos apegarmos às personas, corremos o risco de reduzir a humanidade a uma equação simples. E, como qualquer bom matemático ou cientista de dados sabe, os sistemas complexos são imprevisíveis, cheios de nuances e mistérios. Nossos consumidores são assim também.
Damásio, sabiamente diz: “Não somos máquinas pensantes. Somos máquinas de sentir, que pensam.” Talvez seja hora de pararmos de classificar e começar a sentir.
Porque no final, em um mundo de 688 sextilhões de neurônios, talvez o maior desafio não seja compreender quem são nossos consumidores, mas como nos conectar verdadeiramente com eles.
Let’s brain!