BuzzFutures

Vivemos cercados de futuros cenográficos: bonitos nos slides, frágeis na prática. Mas futuro não é espetáculo, nem alienação: ele exige lucidez, disciplina e responsabilidade.

A palavra futuro virou um jogo perigoso. Vivemos uma era em que qualquer menção ao futuro parece vender. Basta colar o termo a um título, seja de artigo, palestra ou produto, para garantir cliques, aplausos e até investimentos. Mas sob o brilho das buzzwords, muitas vezes esconde apenas uma superfície polida, sem profundidade ou compromisso real com transformação. É o que chamamos de BuzzFutures: futuros cenográficos, que brilham em slides mas não sobrevivem à realidade das organizações.

Essa estética do futuro vazio se prolifera em eventos, relatórios e discursos corporativos. São narrativas que simulam visão estratégica, mas não sustentam mudança. O resultado é um efeito colateral perigoso: o próprio conceito de futuro começa a perder credibilidade.
Surge então o ceticismo disfarçado de ironia:

“Pra quê pensar no futuro se tudo vai piorar?”
“Já tentaram prever o futuro e erraram feio.”
“Futuro é papo de guru ou de startup vendendo hype.”

É comum vermos pessoas com essa postura crescente de descrença, ironia ou desdém em relação à ideia de futuro, especialmente à prática de imaginar, planejar ou construir futuros desejáveis. Mas de onde vem isso?

 

1. Fadiga com promessas não cumpridas

A internet não nos libertou. A IA ainda não resolveu a desigualdade. O metaverso flopou. As promessas de “futuros brilhantes” se tornaram produtos de marketing, não compromissos reais.

2. Realismo catastrófico

Emergência climática, colapsos políticos, pandemias, guerras. O presente parece tão instável que imaginar futuros positivos soa ingênuo.

3. A captura do futuro pelo capital

O futuro virou um ativo corporativo, usado para vender inovação, decorar relatórios ESG ou justificar cortes, e não um bem comum. Isso gera desconfiança.

4. Hiperdistopia e cultura do medo

Filmes, séries, livros: a estética do futuro se tornou sombria, pós-apocalíptica, distópica. Isso contamina o imaginário coletivo.

5. A performance do futurismo vazio

Palcos cheios de buzzwords (“metaverso”, “disrupção”, “5.0”) mas sem substância crítica reforçam a ideia de que futurismo é show, não reflexão estratégica.

A consequência de tudo isso são futuros vazios. Narrativas frágeis, sem consistência para resistir e se adaptar as mudanças. Visões rasas que sequestram o amanhã.

Precisamos resgatar o futuro antes que seja tarde demais, e entender que o tema não é fetiche para palestras ou um termo para mostrar que minha empresa é moderna.

 

Futuro é assunto sério e necessário, estrutural e inegociável.

Essa polarização entre os que usam indiscriminadamente a palavra futuro sem saber do que se tratam, e dos que refutam o tema por acharem popular demais, precisa ser resolvida com algo que nos habilite a preparar nossos negócios, isso se chama foresight.

Foresight não é futurismo de palco. É disciplina estratégica.

O verdadeiro foresight não está nos palcos nem nos slogans. Ele acontece nos bastidores, quando líderes se dispõem a sair da inércia e encarar o futuro como aquilo que ele é: incerto, múltiplo, construído a partir das escolhas de hoje.

Foresight é uma prática sistemática de antecipação, análise e construção de futuros possíveis, voltada à tomada de decisão no presente. Ele ajuda organizações a:

• Mapear sinais fracos e padrões emergentes;
• Identificar incertezas críticas que podem reconfigurar o setor;
• Criar cenários que ampliem a visão estratégica;
• Desenvolver estratégias adaptativas, capazes de resistir e se reinventar;
• Evitar decisões reativas e manter a coerência entre intenção e ação.

Ao contrário dos BuzzFutures, o foresight não vende promessas. Ele cria clareza em meio à ambiguidade, não para prever o que vai acontecer, mas para preparar líderes e organizações para lidar com a complexidade.

Não é o futuro que falhou.
Nós que o abandonamos cedo demais.

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