É 7 de abril, você acorda pela manhã e, ao pegar o celular, vê uma notificação inesperada:

Por um momento, você hesita. Isso não pode ser real. Você abre os aplicativos de transporte — desativados. Liga para sua equipe — ninguém sabe ao certo como chegou ao escritório. Ao sair de casa, percebe que as ruas estão diferentes: sem congestionamento, mas também sem estacionamentos ou postos de gasolina em funcionamento.
Neste momento, sua mente entra em modo estratégico. Como essa mudança impacta minha empresa? Equipe? Clientes? O que fazer agora?
Esse é um exemplo de um First-Person Scenario (Cenário em primeira pessoa), uma técnica desenvolvida pelo Institute for the Future para ajudar líderes e tomadores de decisão a experimentar futuros possíveis antes que eles aconteçam. Uma abordagem que coloca o participante dentro do cenário, forçando-o a pensar como agir em uma realidade alternativa.
O que é um First-Person Scenario?
Segundo o Institute for the Future, um First-Person Future Scenario é um tipo especial de cenário futuro “jogável” (playable), projetado para tornar futuros difíceis de imaginar e, ao mesmo tempo, estimular a inteligência coletiva e a imaginação estratégica.
O conceito se baseia em dois princípios fundamentais de design de jogos:
1. Adotar uma perspectiva em primeira pessoa – O participante assume o papel de protagonista e experimenta o futuro a partir de sua própria vivência.
2. Tomar uma decisão estratégica nos primeiros minutos – Isso força a mente a sair da abstração e a reagir de forma concreta a uma nova realidade.
Dessa forma, o First-Person Scenario não apenas descreve um futuro alternativo, mas também nos coloca dentro dele, fazendo com que pensemos como reagiríamos, o que sentiríamos e quais ações tomaríamos para nos adaptar.
Segundo Jane McGonigal, futurista do IFTF, um dos grandes desafios do pensamento de futuros é que nosso cérebro resiste a cenários muito diferentes da realidade atual. Segundo ela, um cenário futuro precisa construir uma cena específica e vívida para que o cérebro possa compreendê-lo. Se apenas falamos sobre o futuro de forma abstrata, sem um contexto imersivo, nossa mente se perde tentando interpretar as mudanças.
Por isso, um First-Person Scenario sempre parte de uma estrutura clara:
• Algo mudou radicalmente em relação ao presente.
• Esse novo futuro tem regras diferentes.
• O participante precisa imaginar como ele próprio lidaria com essa realidade.
Esse tipo de abordagem reduz a necessidade de que nosso cérebro fique tentando “encaixar” o novo futuro no presente, permitindo que foquemos em explorar ações estratégicas dentro da nova realidade.
A importância da perspectiva em primeira pessoa
Outro elemento fundamental do método é a perspectiva individual. Em vez de falar de futuros abstratos, os First-Person Scenarios fazem com que cada participante viva o cenário como se fosse real.
Por exemplo, quando propomos:
“Hoje é o primeiro dia sem carros na cidade. Como você chega ao trabalho? Como seus fornecedores fazem entregas? Como sua equipe reage?”
Essa estrutura força você a imaginar sua própria vida dentro desse futuro, tornando o exercício muito mais poderoso do que apenas ler um relatório sobre tendências de mobilidade urbana.
O poder da decisão estratégica antecipada
Um cenário futuro não deve apenas apresentar um novo contexto, mas também colocar o participante em um momento crítico de escolha. Isso porque quando somos forçados a tomar uma decisão dentro de um futuro alternativo, conseguimos testar nossas reações e desenvolver planos de ação antes que esse futuro realmente aconteça.
Por isso, um First-Person Scenario sempre inclui um ponto de decisão, como:
Agora que os carros foram proibidos, você deve decidir se sua empresa investe imediatamente em uma frota de bicicletas elétricas para entregas ou se negocia parcerias com empresas drones. O que você faz?
Essa abordagem treina os líderes para reconhecerem sinais de mudança e tomarem decisões mais rápidas e seguras quando enfrentarem desafios reais. Mas não esqueça de seguir as regras:
• Aceite a mudança – suspenda sua descrença e trate esse futuro como real.
• Responda como líder – quais seriam suas primeiras decisões?
• Analise desafios e oportunidades – sua empresa está preparada para isso? O que fazer?
• Pense no impacto humano – como essa mudança afeta seus clientes, funcionários e fornecedores?
Cenários futuros não são sobre prever o que vai acontecer, mas sim sobre nos preparar para uma ampla gama de possibilidades. Líderes que praticam First-Person Scenarios têm maior capacidade de adaptação e inovação, pois já ensaiaram suas respostas antes que o futuro chegue.
Então, o convite está feito:
• Escolha um futuro improvável e jogue com ele.
• Discuta com sua equipe, explore possibilidades e simule suas decisões.
Os First-Person Scenarios ampliam o alcance da imaginação coletiva, transportando o pensamento do campo puramente semântico (baseado em fatos) para uma experiência episódica, onde o futuro é sentido como uma pré-memória. Esse deslocamento cognitivo muda nossa relação com o futuro, tornando-o mais tangível e familiar. Além disso, estimula a emergência, um fenômeno em que soluções e estratégias inesperadas surgem a partir da interação entre diferentes perspectivas, refinando nossa capacidade de resposta diante do desconhecido.
Para treinar o cérebro a pensar o impensável, é essencial forçá-lo a explorar cenários que ele instintivamente rejeitaria. O inimaginável não é uma barreira concreta, mas sim uma construção mental que criamos ao descartar aquilo que nos parece improvável ou perturbador. Quando nos permitimos brincar com futuros improváveis, expandimos nossos limites cognitivos e desenvolvemos a habilidade de navegar por realidades incertas com maior clareza e agilidade.
Um futurista não é apenas alguém que prevê tendências, mas sim aquele que aceita e investiga ideias que a maioria descartaria como impossíveis, impraticáveis ou até perigosas. Afinal, se um cenário futuro provoca desconforto, isso significa que ele está cumprindo seu papel: desafiar nossa visão de mundo, desestabilizar suposições arraigadas e nos preparar para agir com inteligência em um futuro que, mais cedo ou mais tarde, se tornará presente.